quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

CLARA E OS GATOS




                                             Clara não sabia como fora. Por onde tudo se passara. Nem mesmo sabia se passara.

                                        Sobre a margem da mesa os frios longos lírios de cera de procissão esperavam uma decisão sobre amar ou não. Todas as mulheres da casa esperavam a decisão que viria daquele silêncio na cozinha. Clara nunca soube se depois do silêncio teria havido uma resposta. Não entendia se podia haver uma resposta.                                                                     
       
                                       Os gatos ainda estavam no porão. Um calor sufocante vinha de lá... maiô de lã, a caixa d´água no telhado do quarto andar da casa, o vento lá em cima, a malandragem de Clara e seus olhos  na escadaria vermelha, no chão de tijolos quando  vomitava. Tantos sinos tocando o cinza, a paralisia, o prato de folha colhendo o sangue da garganta da ave que nunca devia ser a sua. Em cima a família, Clara e vestidos marfim, batons, colares, sapatos de salto. Não havia nada que definisse seus hábitos. Adorava, às vezes, ver seu pai gritando para ver-lhe a língua vermelha fazendo malabarismos diabólicos no limite dos lábios finos e escuros e os lábios esbranquiçados da mãe, de quem nunca vira a língua nessas horas de dentes cerrados, braços se debatendo no ar, a carne branca aparecendo aqui e ali. Logo tampava os ouvidos e fechava os olhos repetindo- eu não sei, eu não sei, eu não sei- e saía pra rua, -quem vai morrer dessa vez, vou saber por que dessa vez?

                                       Naquela manhã a casa ofegava. Eram os gatos no porão que se apossavam do escuro. Estavam lá. As pulgas não paravam nos seus pelos e passeavam pela intimidade do segundo andar. Só Clara não via as pulgas. Não sentia coceiras e não sabia dos gatos. Uma de suas irmãs catava pulgas nas dobras do cobertor a noite toda. Apertava alguma coisa estralante entre as unhas, e continuava a catar e a achar mais pulgas e pulgas e a matá-las entre as unhas. Não dormia mais.

                                       A mãe decretara a guerra. Clara se levantou. Ainda de camisola e descalça correu ao terreiro, no fundo dele, pisando no podre do chão do galinheiro, patinando na lama escura de estrume, terra e restos de comida. Quis pegar duas galinhas. Corria no galinheiro imenso, tentava alcançar os poleiros, as aves ágeis e Clara ágil de deslizar descalça até que se deparou com o velho armário de livros que despencou sobre ela. Estava no chão, o cheiro de esterco ácido colado em seu rosto, a camisola branca úmida e pastosa, a lateral dos braços naquele frio mole, coração aos pulos, a dor sobre ela. Conseguiu sair de debaixo do peso temendo ser vista no que achava ridículo. O armário avançara sobre ela. Clara o levantou assustada e o colocou ainda bamba do esforço junto ao muro lateral, úmido das chuvas. Jamais se esqueceu em toda sua vida do primeiro aviso que recebera.

                               Conseguiu enfim as duas galinhas. Foi ao tanque, no patamar superior do terreiro, encheu-o de água e testou a morte. Pegou as galinhas pelos pés e as afogou aguardando o tempo de darem o último repuxão de asas. Aí as retirou e deixou que recuperassem o fôlego. Em seguida as enfiou no tanque e começou tudo de novo, quatro, cinco vezes. Depois as soltou de volta ao galinheiro e foi para os tambores de água ao lado do tanque. Enfiou sua cabeça neles - o cheiro de ferro e zarcão na água- e ficou ali inerte, por muito tempo, até se sentir tonta a ponto de quase desmaiar. Retirou a cabeça da água,  apoiou-se nos tambores com os dois braços e começou tudo de novo, quatro, cinco vezes.
                               Terminado, entrou no tanque e lavou-se, roupa e tudo, enrolou-se num lençol, subiu pela janela do último andar, pelo telhado em cima da garagem, entrou em seu quarto e tirou o vestido da gaveta do camiseiro. Calçou seus chinelos, caminhou andar abaixo onde o barulho de água na pia da cozinha era o que se ouvia.

                               Ela ainda se lembra do escuro que fazia naquela manhã, a cozinha com um único basculante grande no canto esquerdo que dava para o terreiro, sobre uma pia redonda que nunca se soube para que servia. Por que sua mãe sempre parecia uma leprosa branca, enrolada em panos? Tudo nela era panos, nos pés só os dedos de fora, meio arroxeados e o resto panos, panos, panos, avental, pano de prato, panos, panos e sempre, aqui e ali, um pouco de carne branca; nunca sentiu que sua mãe tivesse pele, só se lembra da carne branca da mãe a ponto de desmanchar de tanto lavar e limpar e chorar seu destino de prisioneira do fogo.

                               Pegaram suas canecas de café e foram para a mesa. De um lado, os homens se deixavam chefiar pela mãe, intranquilos para comer enquanto pensavam nas pauladas que dariam dentro do depósito, no porão, em todos os gatos morféticos que infestavam de pulgas a casa, que invadiam o escuro e tomavam seu lugar no que estava sempre abandonado. O depósito ocupava quase o mesmo espaço que usavam para morar nos dois andares de cima. Não tinha luz, nunca ninguém pensou em colocar uma lâmpada ali e vivia abandonado e imenso, profundo que Clara nunca soube seu fim. Do outro lado uma única mulher reclamava das pulgas que passavam com ela as noites, picando seu corpo tomado de nódulos, ela com olhos tão escuros, cabelos escorrendo de preto, miúda e seca, tão forte em reclamar da perseguição, do tormento, tão nova e cheia de hormônios que enchiam seu corpo de pelos, tão cheia de sangue precoce, seu pai com o pijama desenhado de manchas de sangue ... Clara sabia que não teria solução.

                                Aquele era o segundo sinal do dia. Tudo estava como iria ficar para sempre.
                               Temia que os gatos também fossem um sinal. Mas nunca sabia se teria havido resposta depois do silêncio.

                               As outras mulheres da casa, no outro ponto da mesa, permaneciam caladas. Clara tentava voltar a si. Tentava sentir um toque de vento frio que lhe pudesse fazer arrepios e entrar em sintonia, mas tudo era tão forte, as sombras densas, a figura branca da mãe enrolada em panos no meio daquele escuro, o calor sufocante já começando a incomodar, seu pai deixando a casa, a caneca fria, farelos pela mesa toda, não haveria mais tempo. Clara tinha medo. Clara tinha medo daquele imenso escuro abandonado. Clara tinha tanto medo daquele escuro e do medo que tinha e do ódio que iria tomar aquele medo e o escuro todo dali a pouco e dos olhos da mãe que sempre a hipnotizavam, porque sabia que não só os homens iriam, sua mãe esperava que ela também fosse, que suas irmãs ficassem distantes do medo e seu pai não olhava para não ver os olhos de Clara escurecendo quando a luz da porta aberta lhe bateu no rosto.
                               Deveria levantar-se, mas as imagens foram se amontoando dentro dela, uma linguagem estranha, luzes delicadas de poucas velas - os homens do circo de botas de couro preta e chicotes de domadores, casacas verdes e douradas, cartolas pretas de cetim, gordos e baixos, apertados nas roupas e queria ir com eles, sair daquela mesa e viver a angústia atrás das cortinas, aprender  a lidar com as feras, mas a solidão lhe enchia por dentro  e descobriu que era para sempre um motor que trepidava seu peito.

                               Não poderia ser feito daquele jeito, tanto escuro  sagrado, não havia invasão. Que usassem velas, lâmpadas. E se tivessem filhotes, como fazer com aqueles filhotes que mal poderiam enxergar porque os gatos são cegos quando nascem, como os filhos de qualquer mãe são cegos quando nascem e seus pais não olhavam mais para os olhos de Clara, começavam o dia e se esqueciam de olhar para trás.

                               Clara então se levantou rapidamente da mesa, passou perto de seu irmão mais novo e o chamou subindo rápido ao segundo andar, fazendo as curvas da escada quase de quatro, batendo as mãos nas duas cantoneiras de madeira na primeira quina, passando seu anel de lata no corrimão de ferro. Pararam no alto e mal conseguiam respirar. Eles se olhavam assustados e Clara não sabia o que dizer. Ele a olhava; por que o segredo? Clara não conseguia responder. Temia invadir aquele escuro e lhe contou sobre o circo que viria no outro dia na cidade e dos leões e tigres que poderiam se soltar das jaulas durante a exibição. Desceram as escadas e Pedro sabia que o segredo era  maior: Não entre lá, fique na porta do depósito; e lhe deu a mão como iria acontecer muitos anos mais tarde, várias vezes entre eles, que os olhos e as mãos de Pedro inundam Clara do primeiro afeto de sua vida.

                               Não havia possibilidade. Clara lembrou-se da porta amarelada de madeira vagabunda do depósito. Sempre entreaberta. Sem chave, empenada. Aqueles gatos eram o demônio, poderiam ser, ela desconhecia essas coisas. Não sabia que eles estariam tão fortes, que eles se pareceriam tanto com os demônios que habitavam aquela casa, de dia e de noite, tanta água benta em todos os cantos, como era invocado ali, como tudo estava impregnado dele, e como seu pai gritava e sua mãe gritava e todos gritavam quando se falava dele, do diabo, da fera, do besta. Também não sabia da mutação dos gatos em fera, conhecia seres ou feras, não sabia que se mudava, nunca vira bebês crescerem, não se via crescer, sempre se achando igual cada dia, todos iguais cada dia, só se espantava de ver a negra  batendo claras molengas e transparentes até virarem neves brancas, de uma consistência que nunca conseguiu nomear. Não eram duras, nem firmes; as claras em neve nunca tiveram nome próprio: sempre foram claras em neve, e claras não são como neve;  podem parecer espuma, que tem nome, mas são claras brancas, e sua consistência nunca se nomeou, nunca se soube. Nunca achou que se podia dizer firmes as claras em neve; era próximo, mas essencialmente diferente, nem duras, forte demais para as claras. Portanto, a única coisa que espantava Clara era ver transformarem-se em sua frente, nas batidas de garfos duplos pelas mãos, as claras, e isso ela  nunca soube o nome  quando se transformava.

                               Então, suas pernas foram ao patamar debaixo da escada, suas mãos usaram a escova em seus dentes, a espuma branca descendo ao estômago, seus olhos procurando um reflexo de Clara na parede branca, cheia de pregos para dependurar as escovas pelo cabo e em seus ouvidos entraram os gritos.
                               Não se lembra de como caminharam para lá. A lembrança dos gritos na porta e o escuro imenso fugindo de dentro e entrando pela sua boca, pedindo silêncio e segredo enquanto lhe escancarava a boca e a garganta, a olhava de forma feroz amendoada e negra, e com as garras deslocava seus maxilares, tudo dentro de Clara, de uma só vez. Esteve frente a frente com um deles e teve medo de nunca mais parar de gritar. Os irmãos estavam cegos e desgovernados, batendo no escuro, gritando com o escuro. Só ela esteve no ponto de vê-los, só ela viu os olhos que não a deixavam mais dormir sem muitos sonhos. Nunca soube o que teria compreendido para sempre. A família deu tudo por acabado.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Ovo de Galinha. João cabral de Melo Neto

O Ovo de Galinha

João Cabral de Melo Neto


Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.
Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.
No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:
que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.
II
O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.
E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas
cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.
No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.
III
A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.
O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada. 
A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.
É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.
IV
Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.
Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.
O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:
procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspeta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela. 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011