CLARA E OS GATOS
Clara não sabia como fora. Por onde tudo se passara. Nem mesmo sabia se
passara.
Sobre a margem da mesa os frios longos lírios
de cera de procissão esperavam uma decisão sobre amar ou não. Todas as mulheres
da casa esperavam a decisão que viria daquele silêncio na cozinha. Clara nunca
soube se depois do silêncio teria havido uma resposta. Não entendia se podia
haver uma resposta.
Os gatos
ainda estavam no porão. Um calor sufocante vinha de lá... maiô de lã, a caixa
d´água no telhado do quarto andar da casa, o vento lá em cima, a malandragem de
Clara e seus olhos na escadaria vermelha,
no chão de tijolos quando vomitava.
Tantos sinos tocando o cinza, a paralisia, o prato de folha colhendo o sangue
da garganta da ave que nunca devia ser a sua. Em cima a família, Clara e
vestidos marfim, batons, colares, sapatos de salto. Não havia nada que
definisse seus hábitos. Adorava, às vezes, ver seu pai gritando para ver-lhe a
língua vermelha fazendo malabarismos diabólicos no limite dos lábios finos e
escuros e os lábios esbranquiçados da mãe, de quem nunca vira a língua nessas
horas de dentes cerrados, braços se debatendo no ar, a carne branca aparecendo
aqui e ali. Logo tampava os ouvidos e fechava os olhos repetindo- eu não sei,
eu não sei, eu não sei- e saía pra rua, -quem vai morrer dessa vez, vou saber
por que dessa vez?
Naquela
manhã a casa ofegava. Eram os gatos no porão que se apossavam do escuro.
Estavam lá. As pulgas não paravam nos seus pelos e passeavam pela intimidade do
segundo andar. Só Clara não via as pulgas. Não sentia coceiras e não sabia dos
gatos. Uma de suas irmãs catava pulgas nas dobras do cobertor a noite toda.
Apertava alguma coisa estralante entre as unhas, e continuava a catar e a achar
mais pulgas e pulgas e a matá-las entre as unhas. Não dormia mais.
A mãe
decretara a guerra. Clara se levantou. Ainda de camisola e descalça correu ao
terreiro, no fundo dele, pisando no podre do chão do galinheiro, patinando na
lama escura de estrume, terra e restos de comida. Quis pegar duas galinhas.
Corria no galinheiro imenso, tentava alcançar os poleiros, as aves ágeis e
Clara ágil de deslizar descalça até que se deparou com o velho armário de
livros que despencou sobre ela. Estava no chão, o cheiro de esterco ácido
colado em seu rosto, a camisola branca úmida e pastosa, a lateral dos braços
naquele frio mole, coração aos pulos, a dor sobre ela. Conseguiu sair de
debaixo do peso temendo ser vista no que achava ridículo. O armário avançara
sobre ela. Clara o levantou assustada e o colocou ainda bamba do esforço junto
ao muro lateral, úmido das chuvas. Jamais se esqueceu em toda sua vida do
primeiro aviso que recebera.
Conseguiu enfim
as duas galinhas. Foi ao tanque, no patamar superior do terreiro, encheu-o de
água e testou a morte. Pegou as galinhas pelos pés e as afogou aguardando o
tempo de darem o último repuxão de asas. Aí as retirou e deixou que
recuperassem o fôlego. Em seguida as enfiou no tanque e começou tudo de novo,
quatro, cinco vezes. Depois as soltou de volta ao galinheiro e foi para os
tambores de água ao lado do tanque. Enfiou sua cabeça neles - o cheiro de ferro
e zarcão na água- e ficou ali inerte, por muito tempo, até se sentir tonta a ponto
de quase desmaiar. Retirou a cabeça da água,
apoiou-se nos tambores com os dois braços e começou tudo de novo,
quatro, cinco vezes.
Terminado, entrou
no tanque e lavou-se, roupa e tudo, enrolou-se num lençol, subiu pela janela do
último andar, pelo telhado em cima da garagem, entrou em seu quarto e tirou o
vestido da gaveta do camiseiro. Calçou seus chinelos, caminhou andar abaixo
onde o barulho de água na pia da cozinha era o que se ouvia.
Ela ainda se
lembra do escuro que fazia naquela manhã, a cozinha com um único basculante
grande no canto esquerdo que dava para o terreiro, sobre uma pia redonda que
nunca se soube para que servia. Por que sua mãe sempre parecia uma leprosa
branca, enrolada em panos? Tudo nela era panos, nos pés só os dedos de fora,
meio arroxeados e o resto panos, panos, panos, avental, pano de prato, panos,
panos e sempre, aqui e ali, um pouco de carne branca; nunca sentiu que sua mãe
tivesse pele, só se lembra da carne branca da mãe a ponto de desmanchar de
tanto lavar e limpar e chorar seu destino de prisioneira do fogo.
Pegaram suas
canecas de café e foram para a mesa. De um lado, os homens se deixavam chefiar
pela mãe, intranquilos para comer enquanto pensavam nas pauladas que dariam
dentro do depósito, no porão, em todos os gatos morféticos que infestavam de
pulgas a casa, que invadiam o escuro e tomavam seu lugar no que estava sempre
abandonado. O depósito ocupava quase o mesmo espaço que usavam para morar nos
dois andares de cima. Não tinha luz, nunca ninguém pensou em colocar uma
lâmpada ali e vivia abandonado e imenso, profundo que Clara nunca soube seu
fim. Do outro lado uma única mulher reclamava das pulgas que passavam com ela
as noites, picando seu corpo tomado de nódulos, ela com olhos tão escuros,
cabelos escorrendo de preto, miúda e seca, tão forte em reclamar da
perseguição, do tormento, tão nova e cheia de hormônios que enchiam seu corpo
de pelos, tão cheia de sangue precoce, seu pai com o pijama desenhado de
manchas de sangue ... Clara sabia que não teria solução.
Aquele
era o segundo sinal do dia. Tudo estava como iria ficar para sempre.
Temia que os
gatos também fossem um sinal. Mas nunca sabia se teria havido resposta depois
do silêncio.
As outras
mulheres da casa, no outro ponto da mesa, permaneciam caladas. Clara tentava
voltar a si. Tentava sentir um toque de vento frio que lhe pudesse fazer
arrepios e entrar em sintonia, mas tudo era tão forte, as sombras densas, a
figura branca da mãe enrolada em panos no meio daquele escuro, o calor sufocante
já começando a incomodar, seu pai deixando a casa, a caneca fria, farelos pela
mesa toda, não haveria mais tempo. Clara tinha medo. Clara tinha medo daquele
imenso escuro abandonado. Clara tinha tanto medo daquele escuro e do medo que
tinha e do ódio que iria tomar aquele medo e o escuro todo dali a pouco e dos
olhos da mãe que sempre a hipnotizavam, porque sabia que não só os homens
iriam, sua mãe esperava que ela também fosse, que suas irmãs ficassem distantes
do medo e seu pai não olhava para não ver os olhos de Clara escurecendo quando
a luz da porta aberta lhe bateu no rosto.
Deveria
levantar-se, mas as imagens foram se amontoando dentro dela, uma linguagem
estranha, luzes delicadas de poucas velas - os homens do circo de botas de
couro preta e chicotes de domadores, casacas verdes e douradas, cartolas pretas
de cetim, gordos e baixos, apertados nas roupas e queria ir com eles, sair
daquela mesa e viver a angústia atrás das cortinas, aprender a lidar com as feras, mas a solidão lhe
enchia por dentro e descobriu que era
para sempre um motor que trepidava seu peito.
Não poderia ser
feito daquele jeito, tanto escuro
sagrado, não havia invasão. Que usassem velas, lâmpadas. E se tivessem
filhotes, como fazer com aqueles filhotes que mal poderiam enxergar porque os
gatos são cegos quando nascem, como os filhos de qualquer mãe são cegos quando
nascem e seus pais não olhavam mais para os olhos de Clara, começavam o dia e
se esqueciam de olhar para trás.
Clara então se
levantou rapidamente da mesa, passou perto de seu irmão mais novo e o chamou
subindo rápido ao segundo andar, fazendo as curvas da escada quase de quatro,
batendo as mãos nas duas cantoneiras de madeira na primeira quina, passando seu
anel de lata no corrimão de ferro. Pararam no alto e mal conseguiam respirar.
Eles se olhavam assustados e Clara não sabia o que dizer. Ele a olhava; por que
o segredo? Clara não conseguia responder. Temia invadir aquele escuro e lhe
contou sobre o circo que viria no outro dia na cidade e dos leões e tigres que
poderiam se soltar das jaulas durante a exibição. Desceram as escadas e Pedro
sabia que o segredo era maior: Não entre
lá, fique na porta do depósito; e lhe deu a mão como iria acontecer muitos anos
mais tarde, várias vezes entre eles, que os olhos e as mãos de Pedro inundam
Clara do primeiro afeto de sua vida.
Não havia
possibilidade. Clara lembrou-se da porta amarelada de madeira vagabunda do
depósito. Sempre entreaberta. Sem chave, empenada. Aqueles gatos eram o
demônio, poderiam ser, ela desconhecia essas coisas. Não sabia que eles
estariam tão fortes, que eles se pareceriam tanto com os demônios que habitavam
aquela casa, de dia e de noite, tanta água benta em todos os cantos, como era
invocado ali, como tudo estava impregnado dele, e como seu pai gritava e sua
mãe gritava e todos gritavam quando se falava dele, do diabo, da fera, do besta.
Também não sabia da mutação dos gatos em fera, conhecia seres ou feras, não
sabia que se mudava, nunca vira bebês crescerem, não se via crescer, sempre se
achando igual cada dia, todos iguais cada dia, só se espantava de ver a
negra batendo claras molengas e
transparentes até virarem neves brancas, de uma consistência que nunca
conseguiu nomear. Não eram duras, nem firmes; as claras em neve nunca tiveram
nome próprio: sempre foram claras em neve, e claras não são como neve; podem parecer espuma, que tem nome, mas são
claras brancas, e sua consistência nunca se nomeou, nunca se soube. Nunca achou
que se podia dizer firmes as claras em neve; era próximo, mas essencialmente
diferente, nem duras, forte demais para as claras. Portanto, a única coisa que
espantava Clara era ver transformarem-se em sua frente, nas batidas de garfos
duplos pelas mãos, as claras, e isso ela
nunca soube o nome quando se
transformava.
Então, suas
pernas foram ao patamar debaixo da escada, suas mãos usaram a escova em seus
dentes, a espuma branca descendo ao estômago, seus olhos procurando um reflexo
de Clara na parede branca, cheia de pregos para dependurar as escovas pelo cabo
e em seus ouvidos entraram os gritos.
Não se lembra de como
caminharam para lá. A lembrança dos gritos na porta e o escuro imenso fugindo
de dentro e entrando pela sua boca, pedindo silêncio e segredo enquanto lhe
escancarava a boca e a garganta, a olhava de forma feroz amendoada e negra, e
com as garras deslocava seus maxilares, tudo dentro de Clara, de uma só vez.
Esteve frente a frente com um deles e teve medo de nunca mais parar de gritar.
Os irmãos estavam cegos e desgovernados, batendo no escuro, gritando com o
escuro. Só ela esteve no ponto de vê-los, só ela viu os olhos que não a
deixavam mais dormir sem muitos sonhos. Nunca soube o que teria compreendido
para sempre. A família deu tudo por acabado.